I could kill you sure but i could only make you cry with these words

Depois do apocalipse
andreia_rg

O sol derrete meu rosto esfumaçado. É a cidade em que vivo, é a rotina que suga o ar de meus pulmões e embranquece meu cabelo. Tento ser apenas figurante. Não quero participar do caos. Vejo animais perdidos andando nas avenidas. Crianças chorando e violência. Ninguém caminha pra lugar nenhum e é essa a chamada evolução da humanidade. Que cospe o chiclete sabor câncer onde pisam os meus pés. Eu não me corrompi, mesmo com astigmatismo enxergo que tudo está fora de foco.

E quando anoitece vou logo dormir, já que não existem mais estrelas no céu, todas já caíram, nem um deus para crer nem alguém para amar. O apocalipse veio e não há mais medo ou esperança de se salvar. Não posso esquecer, o sol é a única estrela que continua colada no céu, queimando o que sobrou da Terra. Então me pergunto o que faço dentro deste ônibus sem rumo.


Primeiros - e - últimos encontros
andreia_rg
Vila Mariana. Te vejo na fila aguardando o ônibus. Venta pouco, mas mesmo assim seus cabelos parecem querer voar para longe. Seus olhos atentos ao livro de Garcia Marquez. Não consegui ler o título, não consegui ler seus olhos e fui embora.

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Antes de anoitecer te pedi o isqueiro emprestado. Você, séria, procurou na bolsa e demorou um certo tempo para encontrá-lo, o que te deixou um pouco sem jeito. Eu olhei atenta para seu rosto sem traço algum – talvez por ser nova demais, já que cometia a ousadia de fumar um Marlboro vermelho – e sorri. Você não devolveu o gesto. Durante uns três minutos ficamos lá, próxima uma da outra pensando no que dizer – já que resolvi fumar aquele cigarro apenas para puxar uma conversa, imagina – mas o último trago foi dela. Quando me virei para perguntar algo, ela já havia desaparecido.


Pijama
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Meia - noite e pouco e ela com aquele livro velho adormece com a luz acesa sem perceber, sem notar a última nota que escutou daquele disco do Sonny Rollins. Ela sonha com degraus e quando bate aquela sensação de que vai cair, acorda e apaga a luz.

sábado
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Shorts velho. Camiseta regata. Sábado. Sol.
Eu te ajudo a lavar o carro. Garagem mangueira. Fazia tanto tempo que...
No mercado a gente compra Coca-Cola. Sandália de sola de pneu. Cachorro. Quintal. Em casa tem Herman Düne pra ouvir. Eu ando tão feliz.
Hoje não vou sair com a menina e sei que talvez nunca mais. Mas tem cerveja e amigos e o meu seriado preferido. Feliz. Mesmo com vontade de chorar às vezes. Só às vezes. Sei que vai passar. E mais uma vez vou tentar. Fazer música e sorrir. Poema triste é pra quem reconhece. Mas ta tudo bem. Sábado é só uma vez. Aproveito como posso e hoje não faço o que não dá. Faço o que é pra mim. Vou até onde dá. Sem comparar com o que relembro com os amigos histórias de antigos verões. Sabendo que temos um a caminho. Sem medo do ano acabar, de usar relógio. Ou festejar. Eu vou. E talvez eu vá sozinha. Algo bom espera por mim.

Conclusão
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Daqui em diante ele abraçaria seu travesseiro quando se sentisse só. As pessoas machucam, algumas até mordem. Ele aprendeu.

dia das crianças
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Ele tinha três filhos e voltava pra casa. Eu, no mesmo ônibus, com destino semelhante. Ah meus amigos, meus amores e família. Filme e chocolate. Um banho quente e finalmente deitaria no sofá.

Elisa
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Hoje não tem problema. Elisa disse para si. Já nem sabia mais exatamente há quantos dias não escutava aquela música. Eu bem que tentei. Tentou mesmo. Mas isso não é de hoje. E bem que arriscou o amor de outras pessoas. Substituir. Não deu certo. Nunca dá. Elisa não tem forças para tentar correr atrás. Pra seguir em frente muito menos. Arranjou um gatinho de estimação. Comprou roupas novas. Tem um amante. Mas tem aquele velho disco guardado ainda. Não com o resto de sua coleção. Ela bem que tem consciência do vício. Mas o que se conversa com o amante? Mas o que se faz numa segunda-feira chuvosa? É tão normal...cair.
Lê, faz o gato dormir, dá comida para os peixes, prepara um café. Mas ele não está lá. Não está pensando nela e nem vai pensar. E ela sabe. E ela tentou. E a cortina da sala se movimenta com o vento de uma forma tão triste que dá vontade de chorar. Ao mesmo tempo que ela te chama pra ficar ali, encostada por horas com sua xícara olhando lá de cima a cidade adormecer. Ela nunca adormece. Elisa nunca adormece. Mesmo sendo viciada em café. Ela tem um vício muito pior. Ela tem uma memória. Ela ainda tem aquele disco.

que inverno que nada
andreia_rg
Eu não costumava sair de casa aos domingos. Nem escrever em primeira pessoa. Era a ressaca. Era o receio.
E talvez quando terminar de escrever isso aqui eu chegue apenas a conclusão de que estou velha. De que existe vida durante o dia. De que não preciso me esconder atrás de personagens fictícios para contar a minha história. História. Não é bem essa a palavra. Mas não importa. Eu só quero descrever sobre uma sensação boa que tive. E ainda no domingo. E ainda em São Paulo. Mas longe dos bares e dos clubes que todos freqüentam.
Hoje eu escolhi o sol. Decidi fazer um pic nic no Parque do Ibirapuera. Pedalei na minha antiga bicicleta vermelha. Eu, que de tão branca, também fiquei vermelha exposta a tanta luz. Eu com a escaleta. Você com o violão. E o lago e a grama verde. E nem parece que ainda é inverno. Nuvens, só de algodão doce, que as crianças devoram. O rosto melado. Um sorriso transmissível. Você a voz. Eu o poema. Voz para meus poemas. Poemas novos, coloridos, sobre pássaros, sobre flores. Poemas sem vergonha. Sem vergonha de causar bem-estar. Ah! Eu que já fiz tanta gente chorar. Agora quero agradar.
De um lado cestas, cata-vento, maçã do amor. Do outro, balanço, gangorra, cachorros.
Eu que achava que domingo era cinza. A gente ri e rola na grama. Rola de rir. A gente se olha sem promessa porque sabe que é certeza.
O amor é aquilo que está do seu lado.
Eu te conto uma história e você dorme. Eu te abraço e durmo também. Eu abraço o sonho. Eu fecho os olhos sem medo.
Pronto.
Era só isso. Só um detalhe, um dia, um momento bobo, que faz a gente mudar a direção da nossa vida. Que faz a gente começar. Assim se vive pra sempre. Assim a alma não envelhece. E tudo muda de cor.
Hoje o céu é azul e o coração é vermelho. Era assim que devia ser desde o início? Eu não sei. Eu não perdi. Eu só ganhei.

medo infantil de adulto
andreia_rg
Não há nada pior que acordar cedo. Oh Deus! Ainda é quarta-feira. Ainda são seis da manhã e você tem que estar de pé, você, ser anônimo como todos os outros que tem a obrigação de acordar cedo toda a vida. O cheiro do café, o barulho do espremedor de laranjas, causa um barulho em seu estômago, que na verdade parece estar sendo espremido também. Olha só, já não pensa nem o que irá vestir. Ninguém se importa mesmo. A vida é tão sem graça que dá vontade de chorar.
E saber que chorar é a única coisa que pode fazer. Depois respira fundo e abre a porta pra rua. Sem olhar pra cara de ninguém. O mundo não sorri. O mundo também chora, é maior e mais velho que você, mas consegue ser discreto. Você, com essa cara barbuda, e ainda com medo de dias cinzentos. Nessa cidade, toda manhã é cinza e você nunca tentou se acostumar. Nunca parou para pensar que todos ao seu lado no ônibus também andam de saco cheio.
Mas te entendo. Parece que é só você que acorda e se vê abraçado com o travesseiro de tanto medo do dia comum.
No fim, ninguém cresce o suficiente para abandonar os medos que nos acompanham desde a infância.

Preguiça
andreia_rg
Aquele inverno podia ter sido mais interessante se ela tivesse coragem de sair da sua cidade e aceitado aquele café. Retribuído o sorriso de um estranho. Claro que as árvores já sem folhas ao redor de sua casa tinham um certo charme, e possivelmente a impediam de sair de lá, de arriscar. O novo. Pra quê?
Em casa tem chá, café. No final, é só decepção. Solitário poderia ser estar do lado daquela estranha simpática. Se fosse ao menos outono...as folhas secas pelo chão. Agora inverno, nem se quer folhas. Ah, nunca se sabe qual é a melhor estação. Mas seu coração não aquecia sequer no verão.

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