I could kill you sure but i could only make you cry with these words

um beijo
andreia_rg
a todos que acompanharam esse blog ao longo desses anos. Continuarei escrevendo nesse blog: hollywood arroz feijão: http://hollywoodarrozfeijao.blogspot.com/
espero que gostem :)

quem sabe um dia
andreia_rg

Ele ia todo dia toda manhã toda vida ele ia mas não queria então vestia. Seu pijama velho e partia.

Quando chegava eram litros de café, o combustível para acelerar aquelas horas que de nada valiam e no fim do dia não dormia. Bem que queria.

Fechar os olhos e inventar uma história de fantasia ou abrir o caderno e escrever todo o vazio que sentia já não daria.

Juntar as moedas que recebia depois de trinta dias e planejar a sua fuga talvez um dia. Mas já se passaram tantos deles que ele já não tinham mais páginas naquele calendário velho da parede da sua cozinha suficientes para contar suas desistências. Quando se permitiria.

Quem sabe

Um dia.

Um dia.

Um dia.

Um dia.

Um dia.

Um dia.

Um dia.

Um dia.

Um dia.

Um dia.

Um dia.

Um dia.

Um dia.

Um dia.

Um dia.

Um dia.

Um dia.

Um dia.

Um dia.


não continua
andreia_rg

Ontem me demiti sem aviso prévio, pois estava com vontade de ir àquela livraria charmosa que conheci na semana passada e comprar todos os livros do Murakami que ainda não li. E ler todos de uma vez.

Então eu fiz.

Saí quase correndo do escritório e não eram nem cinco da tarde.

Ainda ofegante entrei no lugar onde queria me refugiar. Todos os livros pareciam estar a minha espera. Um do lado do outro.

E então na hora em que me dirigi ao caixa avistei a garota que estava atrás do balcão. Ela tinha cabelos claros, olhos atentos às páginas de um livro que não consegui identificar o título e fiquei com vergonha de perguntar pois iria parecer que eu queria puxar assunto e eu já não sei mais conversar. Enfim. Ela usava um sweater azul claro, tão claro quanto seus olhos e seus cabelos, ah! Isso eu já disse e ela estava numa cadeira de rodas e usava uma calça marrom de veludo cotelê.

E ela me deu um marcador de livros. Aliás, ela colocou no meio de Kafka à beira-mar e disse: Esse é o meu favorito.

E quando cheguei em casa coloquei a água na chaleira e logo comecei a lê-lo. E acho que me apaixonei.



em caso de suicídio,
andreia_rg
música é a bala que eu dísparo no meu ouvido.

calçada
andreia_rg

Encontrei alívio então quando parei

de andar e tirei

os sapatos e deixei de amar e tentar entender que é carregar

O mundo nas costas

A dor de um olhar

Ou de um não olhar.

E eu dormi e descansei e acordei? Eu não sei.

Mas cheguei

A conclusão de que é melhor não concluir e deixar os pés molhados no chão

pois mesmo em setembro vem chegando o verão e então.

A lágrima póstuma melhora a respiração e eu

não vou mais enxergar aquilo que faz

os meus olhos arderem.

Eu vou pro mar

buscar

o horizonte vazio outra vez.

 

 



viver para _____.
andreia_rg

Vive-se para o alívio.

Trabalha-se para chegar  a tão sonhada 18h

Anda-se inúmeros quarteirões para chegar em casa e tirar os sapatos

Passa-se fome para emagrecer

Conta-se os dias para algo acontecer

Vive-se para a espera

Espera de ser

De não ser

De ter

De não ter

De saber

De não saber

E depois de ter vivido.

Escrever.

E se não sofrer,

de nada vale.

De nada vale o quê?


pasta de dente
andreia_rg

Quando saí de casa senti aquela noite gelada com gosto de pasta de dente, menta, eucalipto, espuma, me pegar de vez.

Não era o vapor que saía da minha boca. Era a Lua o céu eu não sei mais fiquei. Ali, sentado nos degraus da escada do quintal ao lado do meu cachorro.

E então aquelas frases feitas sobre a possibilidade que cada minuto te oferece surgiram na minha cabeça e eu fiquei feliz por um momento.

Pensei em criar uma música, escrever uma carta ou até mesmo ligar pra você. Mas aquele suspiro era meu e de mais ninguém então desci a rua com minha bicicleta para sentir o vento beijar meu rosto e permiti que todos meus pensamentos caíssem no asfalto e eu encontrei a liberdade e voltei pra casa.



Malu
andreia_rg

Sempre soube que acabaria assim: um, dois, três e.
Deixando no balcão sua dose de gim.

 

Resolvi não dormir porque ela iria.

Desaparecer antes da noite tornar-se dia.

 

E não deixou nada que me fizesse lembrar...

 

Um amor de um trago que.
Não durou nem um, dois, três cigarros e apagou.

 

O amor é cinza.

Bem que você avisou.

 

No Opala 74 do seu pai

ela partiu.

Me deu um beijo sabor gasolina.

 

A lanterna vermelha sumiu

Antes que eu descobrisse a música que tocava no rádio do carro.

Sua única companhia.

 

O amor é cinza.

Bem que você avisou.



feliz aniversário
andreia_rg

Eu até lhe preparei um bolo de aniversário, dei banho no cachorro e arrumei nosso quarto.

 

Você ainda não voltou do trabalho...

 

Cansada de esperar assisti a seus filmes favoritos e cochilei no sofá.

Abri a garrafa de champagne e eu não sei onde você está.

 

Você ainda não voltou do trabalho...

 

Já conversei com a caixa postal do seu celular, chamei nossos amigos para dividir o pequeno jantar que fiz.

Onde você foi parar.

 

Você ainda não voltou do trabalho...

 

Boa-noite amor. Espero acordar ao seu lado.

Se for pra não por favor, me deixa sonhar.

 

Você ainda não voltou do trabalho...


mate com limão
andreia_rg

Chegando do trabalho Virgínia girava a chave para abrir a porta de seu apartamento lentamente. Não era desânimo. Era só falta de pressa. Falta de pressa pra viver.

Tirou seu casaco marrom, comprido, um tanto surrado e deixou-o em cima da mesa. Olhou fixamente para o toca-discos. Um olhar sem dúvida. A agulha já estava na posição para tocar Ballad Medley na versão de Sonny Rollins. Escutara essa música o final de semana inteiro. O som do piston a deixara completamente feliz por ser a pessoa mais triste do mundo. Às vezes Virgínia se importava mais com a trilha sonora que narrava sua vida do que com esta em si. Si menor.

Quem parecia mesmo estar triste naquela segunda-feira gelada era seu estômago. Mas a garota pouco se importou em agradá-lo. Após ligar a vitrola, colocou a chaleira no fogo. Mate com limão. Muito quente. Muito limão.

Sua cama estava à sua espera. Teve o domingo inteiro para arrumar aquela casa de um cômodo só. Em sua cama agora haviam apenas cobertores. Três cobertores que a aqueceram em antigos invernos. Ela não se importava com o tempo.

Acompanhada de sua caneca azul e de alguns livros dos quais teria tempo para folheá-los até adormecer. Mas na verdade Virgínia sentou-se, encostada na parede fria com seu chá que começara a baixar a temperatura. Olhou fixamente para a estante, que estava empoeirando novamente. Pensando em nada e no futuro. Em nada e se realmente queria seguir seu caminho daquela forma. Em nada e se deveria colocar o telefone novamente na tomada e fechou os olhos.



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