I could kill you sure but i could only make you cry with these words

sábado
[info]andreia_rg
Shorts velho. Camiseta regata. Sábado. Sol.
Eu te ajudo a lavar o carro. Garagem mangueira. Fazia tanto tempo que...
No mercado a gente compra Coca-Cola. Sandália de sola de pneu. Cachorro. Quintal. Em casa tem Herman Düne pra ouvir. Eu ando tão feliz.
Hoje não vou sair com a menina e sei que talvez nunca mais. Mas tem cerveja e amigos e o meu seriado preferido. Feliz. Mesmo com vontade de chorar às vezes. Só às vezes. Sei que vai passar. E mais uma vez vou tentar. Fazer música e sorrir. Poema triste é pra quem reconhece. Mas ta tudo bem. Sábado é só uma vez. Aproveito como posso e hoje não faço o que não dá. Faço o que é pra mim. Vou até onde dá. Sem comparar com o que relembro com os amigos histórias de antigos verões. Sabendo que temos um a caminho. Sem medo do ano acabar, de usar relógio. Ou festejar. Eu vou. E talvez eu vá sozinha. Algo bom espera por mim.

Conclusão
[info]andreia_rg
Daqui em diante ele abraçaria seu travesseiro quando se sentisse só. As pessoas machucam, algumas até mordem. Ele aprendeu.

dia das crianças
[info]andreia_rg
Ele tinha três filhos e voltava pra casa. Eu, no mesmo ônibus, com destino semelhante. Ah meus amigos, meus amores e família. Filme e chocolate. Um banho quente e finalmente deitei no sofá.

Elisa
[info]andreia_rg
Hoje não tem problema. Elisa disse para si. Já nem sabia mais exatamente há quantos dias não escutava aquela música. Eu bem que tentei. Tentou mesmo. Mas isso não é de hoje. E bem que arriscou o amor de outras pessoas. Substituir. Não deu certo. Nunca dá. Elisa não tem forças para tentar correr atrás. Pra seguir em frente muito menos. Arranjou um gatinho de estimação. Comprou roupas novas. Tem um amante. Mas tem aquele velho disco guardado ainda. Não com o resto de sua coleção. Ela bem que tem consciência do vício. Mas o que se conversa com o amante? Mas o que se faz numa segunda-feira chuvosa? É tão normal...cair.
Lê, faz o gato dormir, dá comida para os peixes, prepara um café. Mas ele não está lá. Não está pensando nela e nem vai pensar. E ela sabe. E ela tentou. E a cortina da sala se movimenta com o vento de uma forma tão triste que dá vontade de chorar. Ao mesmo tempo que ela te chama pra ficar ali, encostada por horas com sua xícara olhando lá de cima a cidade adormecer. Ela nunca adormece. Elisa nunca adormece. Mesmo sendo viciada em café. Ela tem um vício muito pior. Ela tem uma memória. Ela ainda tem aquele disco.

que inverno que nada
[info]andreia_rg
Eu não costumava sair de casa aos domingos. Nem escrever em primeira pessoa. Era a ressaca. Era o receio.
Quem quando terminar de escrever isso aqui eu chegue apenas a conclusão de que estou velha. De que existe vida durante o dia. De que não preciso me esconder atrás de personagens fictícios para contar a minha história. História. Não é bem essa a palavra. Mas não importa. Eu só quero descrever sobre uma sensação boa que tive. E ainda no domingo. E ainda em São Paulo. Mas longe dos bares e dos clubes que todos freqüentam.
Hoje eu escolhi o sol. Decidi fazer um pic nic no Parque do Ibirapuera. Pedalei na minha antiga bicicleta vermelha. Eu, que de tão branca, também fiquei vermelha exposta a tanta luz. Eu com a escaleta. Você com o violão. E o lago e a grama verde. E nem parece que ainda é inverno. Nuvens, só de algodão doce, que as crianças devoram. O rosto melado. Um sorriso transmissível. Você a voz. Eu o poema. Voz para meus poemas. Poemas novos, coloridos, sobre pássaros, sobre flores. Poemas sem vergonha. Sem vergonha de causar bem-estar. Ah! Eu que já fiz tanta gente chorar. Agora quero agradar.
De um lado cestas, cata-vento, maçã do amor. Do outro, balanço, gangorra, cachorros.
Eu que achava que domingo era cinza. A gente ri e rola na grama. Rola de rir. A gente se olha sem promessa porque sabe que é certeza.
O amor é aquilo que está do seu lado.
Eu te conto uma história e você dorme. Eu te abraço e durmo também. Eu abraço o sonho. Eu fecho os olhos sem medo.
Pronto.
Era só isso. Só um detalhe, um dia, um momento bobo, que faz a gente mudar a direção da nossa vida. Que faz a gente começar. Assim se vive pra sempre. Assim a alma não envelhece. E tudo muda de cor.
Hoje o céu é azul e o coração é vermelho. Era assim que devia ser desde o início? Eu não sei. Eu não perdi. Eu só ganhei.

medo infantil de adulto
[info]andreia_rg
Não há nada pior que acordar cedo. Oh Deus! Ainda é quarta-feira. Ainda são seis da manhã e você tem que estar de pé, você, ser anônimo como todos os outros que tem a obrigação de acordar cedo toda a vida. O cheiro do café, o barulho do espremedor de laranjas, causa um barulho em seu estômago, que na verdade parece estar sendo espremido também. Olha só, já não pensa nem o que irá vestir. Ninguém se importa mesmo. A vida é tão sem graça que dá vontade de chorar.
E saber que chorar é a única coisa que pode fazer. Depois respira fundo e abre a porta pra rua. Sem olhar pra cara de ninguém. O mundo não sorri. O mundo também chora, é maior e mais velho que você, mas consegue ser discreto. Você, com essa cara barbuda, e ainda com medo de dias cinzentos. Nessa cidade, toda manhã é cinza e você nunca tentou se acostumar. Nunca parou para pensar que todos ao seu lado no ônibus também andam de saco cheio.
Mas te entendo. Parece que é só você que acorda e se vê abraçado com o travesseiro de tanto medo do dia comum.
No fim, ninguém cresce o suficiente para abandonar os medos que nos acompanham desde a infância.

Preguiça
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Aquele inverno podia ter sido mais interessante se ela tivesse coragem de sair da sua cidade e aceitado aquele café. Retribuído o sorriso de um estranho. Claro que as árvores já sem folhas ao redor de sua casa tinham um certo charme, e possivelmente a impediam de sair de lá, de arriscar. O novo. Pra quê?
Em casa tem chá, café. No final, é só decepção. Solitário poderia ser estar do lado daquela estranha simpática. Se fosse ao menos outono...as folhas secas pelo chão. Agora inverno, nem se quer folhas. Ah, nunca se sabe qual é a melhor estação. Mas seu coração não aquecia sequer no verão.

Família
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Não importa o que aconteça. Na hora do jantar mãe, pai, filho e filha se reúnem a mesa. O prato principal é pra todos, mas cada um engole o seu problema. Hora sagrada. Hora de compartilhar. Falta sal na vida pacata de Daniel, aquela rotina, que parece não ter sabor nenhum. Já Seu Otávio toma um gole de vinho para o medo descer goela abaixo, sua esposa nunca saberá que ele ama outra mulher. Roberta, a triste esposa adoça o café exageradamente para tirar o gosto amargo da boca. Eduarda, a filha mais velha, está de regime, então para se distrair e esquecer a comida a sua frente, inicia a conversa. O tempo, o trânsito e tudo o que se passou do lado de fora de seus pensamentos. Assim ninguém tem indigestão, assim ninguém descobre o que não quer. A vida é mais doce dessa forma. É?
Que venha a sobremesa.

O peixinho de Clarice
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Quase ninguém sabe. Mas aquele peixinho no aquário de Clarice só vive em água salgada. A garota despejou todas suas lágrimas ali para que o pobre animalzinho pudesse respirar.

Francisco
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É triste dizer. Mas se Francisco fosse um pássaro, ele seria um pombo.

Avesso
[info]andreia_rg
Na verdade o que salvou o dia de João não foi ter ido ao cinema nem ter tomado cerveja preta naquela quinta-feira ensolarada com seu amigo. Estava tão cansado de reclamar da vida que preferia na verdade, ficar só e ver a vida passar lentamente, como o trânsito que enfrentara para voltar pra casa às seis da tarde, tarde de um inverno estranho e quente, estranho porque até aquele momento não conseguiu se sentir feliz com aquela contradição da natureza, aquele presente, aquele exceção.
Em casa, um banho gelado, uma salada. Subiu para o seu quarto, ascendeu somente à luz do abajur e abriu a porta-balcão. Ali sorriu. Na varanda, com sua camiseta regata, seu chinelo de dedo. As luzinhas dos prédios o receberam, o vento beijou seu rosto e o luar, que não lhe cobrou lembrança alguma para fazê-lo se emocionar. Duas, três estrelas apenas, mas agora estava tudo bem. Aquele momento que todos merecem ter em cada dia chegara, quase que tarde, mas João sorriu e confirmou sua tese, a felicidade é o avesso de qualquer coisa grandiosa, é o avesso da expectativa, é algo tão pequeno que quase ninguém consegue enxergar.

Pastel de Queijo
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O amor da vida de Isabel havia partido há um ano e três meses. Calada, engoliu as lágrimas. E não eram poucas, lágrimas por alguém que se vai depois de quase cinco décadas podem afogar qualquer um. Passou dias e noites acordadas, observando aquelas estantes da biblioteca de sua casa ainda conservadas, pois havia quem as limpava duas vezes por semana. Sobre a mesa, uma fruteira com maçãs verdes, vermelhas, uvas e peras. Ainda ali porque não havia quem as comia, ainda brilhantes, pois havia quem as trocava uma vez por semana. Mas um dia deu um basta naquele silêncio. Quer dizer, ela resolveu tentar sobreviver a todas aquelas memórias que surgiam com o cheiro de frutas e voltou a freqüentar a feira a sexta como fizera toda a vida. Se aquela mesa gigantesca em que mal se sentada para fazer suas refeições pedia por belas frutas, ela mesma iria buscá-las, e, quem sabe, come-las, ou ao menos convidar alguém para tirá-las de cena.
Claudia, sua única filha não tinha como deixar seu filho, Lucas, sozinho em casa e pediu a Isabel para que o garoto passasse a manhã de uma sexta-feira em sua casa. Sexta-feira fria. Nublada. Mas mesmo assim, aquela senhora estava cansada de ficar empoeirando em casa, ela sabia que precisava sair dali, tomar um ar e tinha que ser aquele dia. Lucas, seu único neto, seria a sua companhia. Ele, tão extrovertido deixava a avó até constrangida por não poder compartilhar daquele sorriso que iluminava aquela manhã. Não existiam riscos. A saudade era a única que a poderia derrubar. Mas ela estava preparada e se Claudia chegasse antes do previsto, iria ler o bilhete na geladeira.
O garoto todo feliz acompanhou sua avó, de mãos dadas no começo, depois apenas lado a lado, ambos observando aquele lugar como se nunca tivessem ido aquele lugar. Os mesmos vendedores, algo que ela não desejava muito ver. Iriam fazer inúmeras perguntas “por onde andou?” “há quanto tempo!”... Seu Luis adorou o garoto, deu-lhe tangerinas e Dona Marta um pedacinho de melão. Andaram, compraram pêssegos, maçãs e o fantasma de seu marido não estava lá, e sua voz era encoberta pela dos feirantes que anunciavam seus produtos. No final do passeio, Isabel levou Lucas para comer um pastel com caldo de cana. Os olhos do garoto brilharam quando viu que se aproximavam daquela banca. O garoto quase nunca comia fritura, Claudia controlava sua alimentação de forma rigorosa. Pediu de queijo, claro, como toda criança. Isabel arriscou e pediu um para ela também. Sentaram-se e desfrutaram daquele momento, ambos sorrindo, sem nada a dizer.

A noite
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Aquela luz vermelha embrulhou meu estômago. Me senti tão infeliz em conhecer todas aquelas pessoas que fingiam estar felizes dançando vergonhosamente aqueles hinos do passado. A minha geração fantasma. Ah, já não podia respirar o mesmo ar. Saí na chuva. A minha cidade, que habita milhões e milhões de pessoas que sempre parecem se esconder no mesmo lugar. Sim, se esconder porque em porões como aquele, não há nada para se encontrar. E a chuva, gotas que fazem uma viagem tão grande até chegar ao meu corpo que não refrescam. No ponto de ônibus, só eu e um músico de jazz. Como eu descobri que ele tocava jazz? Não conversei com ele. Mas sua estatura, sua boina e seu sax eram característicos. Não quis dizer nada, não quis saber de onde ele vinha. Não quis saber por que ele estava lá nem para onde iria. Eu só queria chorar no meu travesseiro e esquecer a imagem daquele travesti que não sorriu enquanto tocava sua dance music decadente. Eu. Que não fui forte o suficiente para digerir o gosto do submundo e dar risada. Eu que estava sóbrea e não pude sorrir nesse estado. Eu me deixei levar pela sujeira dos outros. Eu levei aquela sujeira pra minha cama e tive pesadelos. Os abraços que ganhei dos meus amigos não me aqueceram naquela noite gelada. Os abraços que não devolvi. As noites de sábado não são mais as mesmas.

Guarda-Chuva
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No meio da tarde daquela sexta-feira, cruzei a Avenida Paulista e entrei na Alameda Campinas, sim, eu tinha um compromisso, tão sem graça que prefiro não citar. Passei por aquele lugar onde tomei uma Coca-Cola e fiquei conversando com você sobre cachorros, família e filmes que todos tem vergonha de assumir que já assistiram. Não tínhamos um relacionamento sério para discutirmos ou algum segredo para contar. Estava tudo bem. E quando virei a esquina não chorei. Mas estava chovendo.

fila do pão
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Ficar horas na fila do pão era até divertido quando não se era o único dever do dia.
Pijama por baixo da jaqueta vinho. Quem é que vai ver, e se ver...
Ela ainda não chegara a idade em que se faz amizade com qualquer um na quitanda, no mercado, na padaria, enfim, no bairro. Ela ainda não tinha a cabeça coberta de fios brancos e todos os seus dentes estavam intactos em sua boca.
Mas ela estava ali. Escutando aquelas senhoras discutirem se o pão com gergelim era realmente melhor que o pão francês. Não adiantava tapar os ouvidos.
- Você pode me dar os mais moreninhos, minha querida!
Enquanto isso a outra senhora aguardava sua novíssima amiga fazer o pedido apenas para irem juntas ao caixa e se despedirem. Não adiantava fechar os olhos.
Raquel tentava não se envolver com a cena, se distraia com o celular como se houvesse, como se houvesse uma ligação perdida ou uma nova mensagem de alguém interessante (na verdade ela havia recebido sim, e de alguém especial, mas a mensagem não dizia o que ela esperava, enfim, detalhes que ajudaram em sua produção para sair de casa, pijamas e olheiras no rosto pálido). Desencontros. Ela começara a imaginar que eu breve marcaria encontros na fila do pão, onde todos eram amigáveis e tinham cheiro de sabonete.
Os longos cinco minutos se passaram, ela poderia voltar pra casa com os oito pães ainda quentinhos para sua família lanchar naquele fim de tarde nublado de quarta-feira. Sim Era o seu único dever diário naquele mês de julho especialmente gelado. Raquel parecia estar sã em casa, mas sabia que deixara um resto de juventude se perder naquela padaria.

pão doce
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Era o mesmo despertador que os acordava há mais de quarenta anos. Era irritante, mas tinha história.
Aquela dia amanheceu aborrecido e, devido a tanto rancor logo começou a chover. Jaime, teimoso que era saiu de casa mesmo assim. Tanto ele quanto Isabel acordavam por volta das nove da manhã. Um horário razoável, mas que os diferiam da maioria de seus amigos que, mesmo sem ter o que fazer, levantavam mais cedo só pra ter mais tempo para reclamar da vida. Naquele dia Jaime acordara primeiro e, sem avisar sua esposa saiu de casa para seguir sua rotina de comprar o pão e o jornal. Seu Antônio, o padeiro já sabia o pedido de Jaime “dois pãezinhos”, mas nesse dia ele resolvera matar alguns minutos na padaria e tomou um café com seus velhos amigos que viviam ali sentados no balcão. A chuva apertou e ele ficou lá até que o despertador tocou e Isabel viu que estava sozinha em casa. Na mesa da cozinha, havia um bilhete: “Não quis te acordar. Volto logo.” A velhinha olhou para toda bagunça que enchia aquela casa e se sentiu vazia. Não lembrava mais quando fora a última vez em que tomaram café naquela mesa que hoje os jornais, as caixas de remédios e os livros ocupavam. A sala era a mesma coisa. O quarto também. Nenhum deles ligavam pra isso. Isabel, orgulhosa, não queria que ninguém viesse limpar a casa, Jaime não sentia tal necessidade. Ficava por isso. Mas aquela quinta-feira o incomodou, aquela mesa o incomodou, estar sozinha não parecia tão cômodo como ela pensava. Não naquela manhã, sem Jaime, que podia estar tomando chuva, que podia nem estar pensando nela. O que se espera de alguém depois de tantos anos juntos? Apenas o estar, o estar é o máximo que alguém pode alcançar, a estabilidade de ter alguém do seu lado para ouvir você reclamando do tempo nublado, do despertador, da vida. Um par. E como era bom estar.
Isabel tomou um banho demorado. Atrás das orelhas e nos punhos colocou algumas gotinhas do perfume que Jaime tanto gostava. Seu brinco de pérolas, seu casaquinho de lã. Empilhou todos os jornais, não deixou nada na mesa daquela cozinha que agora parecia maior. Abriu a gaveta e procurou seu caderno de receitas. Ela sabia todas de cor, mas fazia questão de reler a receita. Pão doce. Faria um pão doce para seu marido. Ele chegaria daquela tempestade e o comeria acompanhado de uma xícara de chá.
Quando Jaime chegou, estava ensopado. Isabel o ajudou a tirar o casaco. Ele tomou um banho quente e quando terminou o pão doce já estava pronto. O cheiro se misturava com o perfume de sua amada esposa que sorria ternamente por sentir aquela paz, por sentir aquela companhia, Jaime retribuiu. Sentaram-se a mesa surpreendentemente espaçosa e riram durante um bom tempo, relembrando do dia em que se conheceram, do perfume que marcara para sempre as narinas de seu marido, do dia em que compraram a mesa e sobre aquele momento. Sem jamais pensar no dia seguinte.

Kombi Voadora
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E passando pela ruazinha perto de casa dentro daquele ônibus carregado de pessoas, vi uma Kombi voadora, carregada de pipas coloridas para distribuir as crianças da pracinha. Fazia frio, vento e sol e era apenas uma terça-feira. Então fechei o livro de tristes poemas, tirei o casaco pesado de meus ombros e pulei daquele ônibus. Fui caminhando para casa e vi que no céu ainda se tem espaço. Espaço para pipas e sorrisos. Aqui embaixo está lotado. Lotado de pessoas acinzentadas que não olham para cima. Queria eu ser criança e ter a chance de não ser uma delas, esverdeada, talvez.

sobre encontros
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Junho. Final de outono, estação favorita de Miguel. Como estava chovendo muito naquela quinta-feira, deixou a bicicleta em casa e resolveu ir ao trabalho de metrô.
No final do dia, horário de pico, aquele tumulto para embarcar o deixava em estado de pânico. Ficou sentado em um daqueles bancos marrons até a situação se acalmar. Pelo menos tinha seu livro como distração, já que até observar aquelas pessoas apressadas o deixava inquieto. Quando estava prestes a tirar seu livro da bolsa, percebeu que uma garota estava encostada na parede ao seu lado com uma aparência um pouco pior que a sua. Perguntou o que ela estava sentindo e ofereceu seu lugar. Ela, pálida e indiferente agradeceu em voz baixa sem olhar para seu rosto, mas pelo menos respondeu sua pergunta:
- Minha pressão baixou.
Vitor saiu e comprou um copo d’ água, não sabia na verdade o que oferecer para alguém que está com a pressão baixa.
- Obrigada.
Passaram-se menos de cinco minutos e Miguel conseguiu arrancar daquela linda garota loira, informações para que ele pensasse nela durante as próximas horas.
-Acho que vou pegar um táxi, não me sinto bem. Mas obrigada pela água.
O garoto não conseguiu mais se concentrar no livro e viu que no banco em que a garota havia sentado ficara sua carteira. Abriu-a, num de seus cartões estava o nome da dona, Marcela. Mas ela já havia sido engolida pela multidão.
Quando chegou em casa, Miguel telefonou para o número do celular que estava na carteira. Ela atendeu, parecia que estava aguardando a ligação. Lembrou-se na hora de Miguel e marcaram de se ver.
-Você pode me encontrar amanhã perto do metrô? Umas três da tarde?
Miguel acabara de arranjar um emprego e não podia faltar, mas não pensou duas vezes.
-Pode ser, te espero ali em cima, na praça.
-Certo. Obrigada e até amanhã!
Na sexta-feira, Miguel acordou lá pelas dez horas, ligou para seu chefe e disse que estava com enxaqueca. Tomou um banho e colocou sua camisa favorita. Leu o jornal, deixou a TV ligada para se distrair enquanto almoçava e, ansioso, saiu mais cedo do que deveria.
Ainda faltavam quinze minutos para as três. Passou numa tabacaria e comprou um maço de cigarros para matar o tempo. Escolheu o banco mais limpo, que ficava bem no meio da praça, assim, ela não teria como não vê-lo. Agora só faltavam mais cinco minutos. “O tempo para terminar o meu cigarro”, pensou. Do seu lado, alguns senhores jogavam dominó e riam o tempo todo. Riu por dentro também quando percebeu que usava uma boina idêntica a de um senhor que olhava para ele com um sorriso no rosto terno e enrugado. Seu último trago e nem sinal de Marcela. Mas não havia problema, hoje em dia numa cidade caótica como São Paulo ninguém mais consegue ser pontual. Abriu seu livro, mas a cada dez segundos parava sua leitura para ver se ela não estava se aproximando. Quatro horas. Havia outro banco que parecia ser melhor, a mesa de dominó dos velhinhos poderia atrapalhar a visão de Marcela quando chegasse. Deu uma volta ao redor da praça, comprou uma revista e mudou de banco.
“É só uma carteira”. A última vez que Miguel ficara ansioso daquela forma foi há exatamente um ano, seu último encontro. Depois daquele momento, a vida parecia lhe dar dias repetidos e nada mais fazia com que ele perdesse um pouco de ar. Mais algumas horas se passaram, o Sol já não iluminava seu rosto. Terminou de ler a revista, o livro e fumou todos os cigarros. A fome batia impiedosamente em seu estômago, que ao contrário dele, não podia esperar. Mas e se ele fosse até o café e ela aparecesse por lá?
Comprou um cappuccino para viagem e tomou ali mesmo no banco, com uma certa desconfiança de que ela havia passado enquanto eles esteve fora durante aqueles longos três minutos. Perguntou aos velhinhos se eles não viram uma garota loira, de cabelos curtos por lá, eles disseram que não.
“Como alguém que perde a carteira com todos os documentos consegue passar o dia inteiro sem se preocupar em tê-la em mãos”. Miguel ligou várias vezes para Marcela, mas o celular parecia estar desligado. O que mais ele podia fazer? Pensou em ir até a sessão de achados e perdidos da estação e deixar a carteira lá, com um bilhete talvez. Mas ele deu sua palavra de que estaria lá...
Anoiteceu, os velhinhos foram para suas respectivas casas encontrar suas esposas, jantar ou fazer qualquer coisa rotineira e confortável. Alguém certamente estava esperando por eles. Sete, oito, nove horas e ela não apareceu. Miguel mudou de banco.

Eco
[info]andreia_rg
A nova casa tinha cheiro de tinta fresca, de folhas secas e parecia ser muito maior agora que Álvaro estava sozinho. Ainda sem móveis. Um árduo trabalho pela frente, já que preencher e decorar requer inspiração, requer um novo fôlego. Completar cada centímetro dessa casa não seria tarefa fácil, mas Álvaro sabia da urgência em começar uma nova vida, uma vida que não queria nascer. A sensação era muito pior do que seu primeiro dia no trabalho. Ele se sentia como um garoto perdido, indefeso. Não sabia como calar aquele grito de medo em seus pensamentos. Os fantasmas de dias passados não poderiam descobrir onde ele estava. Não dessa vez.
A vida, dividida em passado, presente e futuro, como devia ser, e ele estaria no tempo e no lugar certo. Hoje era aquela casa na beira da estrada, hoje sua cabeça, seu corpo e todas suas ideias faziam dele um só, e daí pra frente esse seria seu consolo, estar intacto, sem ter de correr para agarrar as palavras que escaparam de sua boca, sem ter que apagar as frases impulsivas que escreveu, era só ele, e a partir desse passo, o passo de não se mover, encontraria a paz. E quando os móveis ficam no passado, o conceito também é material. Ele pediria pra alguém fazer a mudança? Sua nova história acabara de começar, não havia personagens naquele cenário vazio, de céu nublado onde só o vento improvisava a trilha sonora.
Quem é forte o suficiente pra ir até lá e voltar, ir até o fim do túnel já sem luz e agarrar todos seus pertences? Profundo é o poço do passado, que nos enfraquece e nos deixa incapaz de voltar ao presente. Não sem arranhões. O passado te convida pra ficar, pra ser parte dele. Seria melhor então gastar suas economias e comprar móveis novos? Ainda assim, teria de abandonar, como já havia prometido a si mesmo, as fotografias, as cartas e sua coleção de discos. Um homem sem passado, fingindo eternamente a inocência de ter nascido hoje.
Aguentaria um dia. Se fosse preciso, deixaria o sono de lado. E para que esse dia durasse para sempre, foi até o centro da pequena cidade, comprou uma cafeteira, pó de café e um maço de cigarros.

cinema, solidão e fluxo de consciência
[info]andreia_rg
São Paulo, quinta-feira, frio, feriado. Não aguento mais esse livro, a TV nem as vozes dessa casa. Não aguento mais correr pra fugir de você que nem está perto de mim. Então eu vou andar, em paz, devagar, pra me distrair. E o vento bagunça os meus fios de cabelo branco e logo penso em Holden Caulfield, também de saco cheio das pessoas mas lá no fundo quer ter todos por perto, e acaba insistindo para você ficar. Eu não sei, já quis tanto que você ficasse, já quis tanto ouvir sobre a vida do dono do bar que me servia uma dose de vodka, que agora não sei mais, acho que não quero mais isso, em comum, só os cabelos brancos, em comum o desejo de sair com alguém que mal conheço e me casar. Mas ao contrário de Caufield, eu gosto de cinema, embora as vezes me sinto entediada em frente a tela e fico pensando: “estou perdendo o tempo da minha vida assistindo a vida dos outros que nem sequer existe”. Eu, ali assistindo, também deixo de existir, mas enfim, hoje eu assisti a um filme no cinema, um filme que não me fez querer pular de alegria, mas que me impressionou ao não mostrar uma cena de beijo sequer, e sim, o tormento de quem aguarda uma ligação, de quem espera uma pessoa por horas num café, e que no final, assim como eu, se cansa, e segue, pra lugar nenhum, apenas seca as lágrimas e ri da idiotice que é amar.
E que conforto senti, para aquilo estar sendo representado ali, alguém já viveu a cena. É o que eu sempre digo, a tristeza inspira, não há porque duvidar. Saio da sala e respiro fundo, e lá fora, ascendo o meu cigarro e vejo as pessoas entrarem e saírem da sala com expressões diferentes e não há nada mais belo que o diferente, ninguém vai sentir o gosto do seu cigarro e você precisa aprender a conviver com isso. Enquanto o filme continua rodando na minha cabeça, milhões de outros pensamentos já estão surgindo na cabeça dos outros que estão saindo pela noite a fora com seus amores, que trocam buquês de flores e tomam vinho e não tem assunto nenhum, nem problemas para discutir, nem uma cena preferida do filme para ser comentada, é só um filme, é só entretenimento, é só para estar ao lado de quem se ama, em silêncio. Mas que silêncio é esse que eu tanto invejo? Parece até paz. Meu silêncio atormenta, meu silêncio raciocina e não quer calar, não se dilui com o café e fica entalado na garganta. Fiquei parada aqui tentando preencher esta linha, o silêncio, novamente, tentou ocupar, é a linha não linear, é a vontade de gritar, de dizer o que me comove, eu preciso rabiscar e te dizer, que as cordas dessa harpa que escuto enquanto escrevo me inspiram e me fazem querer voltar, antigamente escrever era um ato compulsivo, mas dessa vez eu vou conseguir. Vou escrever sobre a realidade e sobre o que as pessoas fazem com ela, o que sugam dela, a fotografia, o filme que imita o cotidiano num cenário tão artificial que nos faz rir. Vou escrever sobre um feriado qualquer, com sol e frio e muitas pessoas na rua a procura do que fazer. Vou lhe dizer como é bom seguir apenas sua sombra, escolher o filme que você vai assistir e, ao invés de escutar ou falar qualquer besteira pra seu amigo só pra se distrair, só pra encobrir o silêncio, ouvir sua música preferida.

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