
andreia_rg
- June 13th, 16:47
São Paulo, quinta-feira, frio, feriado. Não aguento mais esse livro, a TV nem as vozes dessa casa. Não aguento mais correr pra fugir de você que nem está perto de mim. Então eu vou andar, em paz, devagar, pra me distrair. E o vento bagunça os meus fios de cabelo branco e logo penso em Holden Caulfield, também de saco cheio das pessoas mas lá no fundo quer ter todos por perto, e acaba insistindo para você ficar. Eu não sei, já quis tanto que você ficasse, já quis tanto ouvir sobre a vida do dono do bar que me servia uma dose de vodka, que agora não sei mais, acho que não quero mais isso, em comum, só os cabelos brancos, em comum o desejo de sair com alguém que mal conheço e me casar. Mas ao contrário de Caufield, eu gosto de cinema, embora as vezes me sinto entediada em frente a tela e fico pensando: “estou perdendo o tempo da minha vida assistindo a vida dos outros que nem sequer existe”. Eu, ali assistindo, também deixo de existir, mas enfim, hoje eu assisti a um filme no cinema, um filme que não me fez querer pular de alegria, mas que me impressionou ao não mostrar uma cena de beijo sequer, e sim, o tormento de quem aguarda uma ligação, de quem espera uma pessoa por horas num café, e que no final, assim como eu, se cansa, e segue, pra lugar nenhum, apenas seca as lágrimas e ri da idiotice que é amar.
E que conforto senti, para aquilo estar sendo representado ali, alguém já viveu a cena. É o que eu sempre digo, a tristeza inspira, não há porque duvidar. Saio da sala e respiro fundo, e lá fora, ascendo o meu cigarro e vejo as pessoas entrarem e saírem da sala com expressões diferentes e não há nada mais belo que o diferente, ninguém vai sentir o gosto do seu cigarro e você precisa aprender a conviver com isso. Enquanto o filme continua rodando na minha cabeça, milhões de outros pensamentos já estão surgindo na cabeça dos outros que estão saindo pela noite a fora com seus amores, que trocam buquês de flores e tomam vinho e não tem assunto nenhum, nem problemas para discutir, nem uma cena preferida do filme para ser comentada, é só um filme, é só entretenimento, é só para estar ao lado de quem se ama, em silêncio. Mas que silêncio é esse que eu tanto invejo? Parece até paz. Meu silêncio atormenta, meu silêncio raciocina e não quer calar, não se dilui com o café e fica entalado na garganta. Fiquei parada aqui tentando preencher esta linha, o silêncio, novamente, tentou ocupar, é a linha não linear, é a vontade de gritar, de dizer o que me comove, eu preciso rabiscar e te dizer, que as cordas dessa harpa que escuto enquanto escrevo me inspiram e me fazem querer voltar, antigamente escrever era um ato compulsivo, mas dessa vez eu vou conseguir. Vou escrever sobre a realidade e sobre o que as pessoas fazem com ela, o que sugam dela, a fotografia, o filme que imita o cotidiano num cenário tão artificial que nos faz rir. Vou escrever sobre um feriado qualquer, com sol e frio e muitas pessoas na rua a procura do que fazer. Vou lhe dizer como é bom seguir apenas sua sombra, escolher o filme que você vai assistir e, ao invés de escutar ou falar qualquer besteira pra seu amigo só pra se distrair, só pra encobrir o silêncio, ouvir sua música preferida.